domingo, 31 de agosto de 2008


FINALMENTE OUTROS ARES
Depois de várias apresentações de A Serpente em Suzano, agora o Teatro da Neura provará outros públicos.Não será um público mais culto ou menos culto, apenas outro público e isso me estimula. É importante que outras platéias provem essa montagem que, acredito muito, propõe um olhar sobre a dramaturgia que o grupo implementou sobre um texto clássico.Mas há um ponto importante nessa apresentação: ela será realizada na academia. Na Anhembi Morumbi, apesar dos professores virem de experiências bem distintas de teatro - onde os experimentos são plenamente aceitáveis - existe a coisa do respeito a linguagem quando chegam na faculdade. E nesse ponto A Serpente do Teatro da Neura, rompe completamente.Não está alí a cama, os móveis, a janela...Mas está sim a pesquisa da linguagem, personagens fortes, circulo contínuo.A proximidade da platéia com as cenas transforma a dramaturgia do Nelson mais rica e forte. Não há necessidade de excessos pois estamos tratando de situações excessivas. Mas, voltando à apresentação da Anhembi, estou na expectativa de uma grande noite. Esperamos honrar o 2º MIA que está sendo organizado por grandes amigos que encontrei na faculdade. Esperamos fazer também uma ótima apresentação para a platéia porque nós do Teatro da Neura com certeza nos deliciaremmos mais uma vez.
Até lá.
Fernandes Junior - diretor do Teatro da Neura

Biografia breve do autor
Nelson Rodrigues nasceu da cidade do Recife - PE, em 23 de agosto de 1912, quinto filho dos catorze que o casal Maria Esther Falcão e o jornalista Mário Rodrigues puseram no mundo. Os nascidos no Recife, além do biografado, foram Milton, Roberto, Mário Filho, Stella e Joffre. No Rio de Janeiro nasceram os outros oito: Maria Clara, Augustinho, Irene, Paulo, Helena, Dorinha, Elsinha e Dulcinha.
Seu pai, deputado e jornalista do Jornal do Recife, por problemas políticos resolve se mudar para o Rio de Janeiro, onde vem trabalhar como redator parlamentar do jornal Correio da Manhã. Em julho de 1916, d. Maria Esther e filhos chegam ao Rio de Janeiro num vapor do Lloyd.
Haviam vendido tudo no Recife para cobrir as despesas de viagem, e tiveram que ficar hospedados na casa de Olegário Mariano por algum tempo. Em agosto de 1916 alugaram uma casa na Aldeia Campista, bairro da Zona Norte da cidade, na rua Alegre, 135, onde a família Rodrigues teve seu primeiro teto na cidade.
Nelson ia sendo criado dentro do clima da época: as vizinhas gordas na janela, fiscalizando os outros moradores, solteironas ressentidas, viúvas tristes, com as pernas amarradas com gazes por causa das varizes. Naquela época os nascimentos eram assistidos por parteiras de confiança e eram feitos em casa. Os velórios também eram feitos em casa, usava-se escarradeira e o banho era de bacia. Nelson registrava em sua memória esse cenário. Daí sairiam os personagens de sua obra literária.
Com o autor vivendo seu quarto ano de vida, um fato pitoresco: uma vizinha, d. Caridade, invade a sua casa e diz para sua mãe: "Todos os seus filhos podem freqüentar a minha casa, dona Esther. Menos o Nelson." Como ninguém entendesse a razão de tal proibição, ela afirmou: vira Nelson aos beijos com sua filha Odélia, de três anos, com ele sobre ela, numa atitude assim, assim. Tarado!
Aos sete anos, em 1919, pediu a sua mãe para ir à escola. Foi matriculado na escola pública Prudente de Morais, a dois quarteirões de sua casa. Aprendeu a ler rapidamente e era por isso elogiado por sua professora, d. Amália Cristófaro. Infelizmente não era muito asseado e vivia sendo repreendido por ela. O que, no entanto, causava espécie, era sua cabeça — desproporcional em relação ao tronco — e suas pernas cabeludas.
Em 1920 ocorreu um fato que, depois, se transformou num dos favoritos do escritor: o do concurso de redação na classe. D. Amália passou a lição: cada aluno deveria escrever sobre um tema livre. A melhor redação seria lida em voz alta na classe. Finda a aula, as composições foram entregues. A professora quase foi ao chão com o trabalho de Nelson: era uma história de adultério. O marido chega em casa, entra no quarto, vê a mulher nua na cama e o vulto de um homem pulando pela janela e sumindo na madrugada. O marido pega uma faca e liquida a mulher. Depois ajoelha-se e pede perdão. A redação, apesar do espanto que causou em todo o corpo docente, não tinha como não ser premiada, muito embora não pudesse ser lida na classe. A professora inventou um empate e leu a outra composição.

Sobre a Montagem
“A Serpente”, último e menor texto de Nelson Rodrigues, conta a história de duas irmãs que se casaram na mesma data, na mesma igreja e vivem com seus maridos no mesmo apartamento. Logo depois de sua separação, Ligia confessa à irmã que ainda é virgem e, atormentada pelo fracasso de seu casamento, pensa em suicídio. Guida então faz uma proposta para salvar a irmã: oferece seu marido por uma noite para livrá-la do fantasma da virgindade. A partir daí, a vida a três naquele apartamento passa a ser guiada por ciúmes, desconfianças e inveja.

A obra foi escrita num leito de hospital, entre um tratamento e outro. Sabendo que essa seria sua última peça, Nelson ao escrever não relia o texto pois não sabia se a doença o deixaria terminar. A linguagem aberta e muitas vezes cruel traduz uma análise fria das mazelas do ser humano. Como todos os personagens rodriguianos, os desse espetáculo são dotados de incontáveis neuroses, psicopatias, taras e fantasias, transpondo feridas de todas as classes sociais.

O “Teatro da Neura” reinterpreta a obra acrescida de um foco mais simbólico, concentrando-se nas indagações e provocações propostas pelo autor, com personagens flutuantes, vidas sufocadas e saídas urgentes.
Direção: Fernandes Junior
Elenco: Cibele Zuchi, Ed Nicodemo, Esther Marcondes, Fernandes Junior e Tuane Vieira.
Cenografia e Figurino: Cind Octaviano
Iluminação: Tomate Saraiva
Produção executiva: Katia Manfredi